Homenagem

Como o tempo passa rápido… Neste mês, mais precisamente no próximo dia 16, terão se passado três anos sem meu pai. Naquela triste tarde de 2007, experimentei a maior dor da minha vida até então. Uma dor que, certamente, nunca será superada, mas que, com o tempo, vai serenando e virando uma saudade constante.

E foi apenas no final do mês passado, através da Revista Flamengo, na qual sou repórter/redator, que consegui fazer uma homenagem digna do excelente pai que ele foi. No momento em que coloquei o ponto final no texto, que reproduzo abaixo, confesso que chorei muito. E resolvi fazer esse post agora porque minha mãe, que acaba de ler a revista, me ligou chorando para agradecer a homenagem.

Ps.: Apesar de este blog estar parado, tô pensando em reativá-lo, para escrever sobre Flamengo. Por isso, resolvi fazer o post aqui.

Eu vi o Zico jogar

Por culpa dos meus pais, não tive a oportunidade de ver, ao vivo, as principais conquistas do Flamengo no início da década de 80. O motivo: eles me fizeram um pouco tarde demais.

Nasci em 1978, ano em que a brilhante centelha do gol de Rondinelli contra o Vasco, na final do Campeonato Estadual, acendeu a chama do time mais vitorioso da história rubro-negra.

Em 1981, com três anos de idade, meu figurino em muitas de minhas fotos já era a indefectível camisa do Flamengo. No entanto, naquela época, eu não tinha como ter dimensão do significado do que havia acontecido no Maracanã um ano antes, quando, após aquele golaço de Nunes, conquistávamos nosso primeiro de muitos títulos brasileiros. E, muito menos, do que havia acabado de acontecer em Montevidéu e em Tóquio.

Libertadores? Mundial? Até então, minhas preocupações eram aprender a falar Flamengo em vez de “Famengo”, dar mais de dez passos sem cair para o lado e me acostumar a usar o vaso sanitário, em vez das fraldas.

E mesmo sem nunca ter sido fanático por futebol, meu saudoso pai, pouco a pouco, me mostrou a importância de ser rubro-negro, assim fez com outros ensinamentos para a vida, como se tivesse um manual definitivo de formação de grandes homens, tal e qual ele foi.

Meu jogaço não foi nenhuma decisão de título, apesar de eu ter visto algumas ao vivo, como, por exemplo, a do golaço de Petkovic em 2001, certamente a maior emoção que já senti dentro do Maracanã, pelas circunstâncias e o nervosismo do momento.

Jogaço, mesmo, eu considero o Flamengo 3 x 1 Santa Cruz do dia 22 de novembro de 1987, pela última rodada do segundo turno do Campeonato Brasileiro, quando, ao sair do estádio, pude dizer com orgulho: eu vi o Zico jogar!

Àquela altura de minha vida, já experiente e cascudo do alto de meus nove anos de idade, o futebol já havia se tornado uma paixão. E meu pai, antes de me levar ao Maracanã pela primeira vez, já havia me ensinado a encarar Zico como um herói.

Lembro-me bem de um amistoso da Seleção Brasileira contra a Iugoslávia, em 1986, pouco tempo antes da Copa do Mundo do México. Assistindo ao jogo pela TV, ao lado do meu pai, levamos um esporro de minha mãe, porque comemoramos feito loucos o antológico gol feito pelo Zico, em que ele invadiu a área driblando pelo meio da defesa, passou pelo goleiro e só faltou entrar com bola e tudo. Era um jogo de meio de semana, tarde da noite e, com a comemoração, acabamos acordando meu irmão, na época com apenas três anos de idade. Esporro merecido!

Na campanha do tetracampeonato de 1987, crianças da minha idade idolatravam o Renato Gaúcho. De fato, ele vinha comendo a bola, tanto que foi eleito o melhor jogador daquela competição. E numa visita à Gávea, também levado pelo meu pai, tive a oportunidade de pegar vários autógrafos num bloquinho de papel, mas ao menos uma assinatura eu fazia questão de colher na camisa 7 que vestia: a daquele jogador que, oito anos depois, me faria, após uma barrigada, sentar desolado na arquibancada, também ao lado de meu pai, e chorar de raiva.

E já com o autógrafo do Renato devidamente colhido ao lado do número 7, meu pai me pegou pela mão, apontou pro Zico e disse: “o autógrafo dele também tem que estar na camisa”. E, orgulhoso, Seu Sergio viu nosso herói deixando a assinatura no manto que seu filho vestia.

O jogo contra o Santa Cruz foi algumas semanas depois dessa ida à Gávea e seria apenas mais um daquele campeonato, no qual assistimos a vários no Maracanã, entre eles os mais importantes: a semifinal contra o Atlético-MG e a final contra o Internacional.

Com a bola em jogo, o primeiro tempo terminou sem gols – inclusive com um pênalti perdido pelo Santa Cruz –, mas, com o Flamengo atacando para o lado da torcida, Zico já dava uma espécie de aperitivo do que seria uma tarde mágica quando, ainda nos primeiros minutos, após um cruzamento de Aílton pela direita, arrematou de bicicleta, mas acertou o travessão.

Foi então que o jovem lateral-esquerdo Leonardo, recém-chegado das categorias de base, fez uma jogada pela esquerda logo no primeiro minuto do segundo tempo, que Zico completou para o gol, abrindo o placar contra os pernambucanos. Lembro-me de ter ouvido no rádio que Leonardo chorou, por ter, pela primeira vez, dado um passo para seu ídolo marcar um gol.

Pouco tempo depois, os pernambucanos empataram, mas o jogo sempre esteve sob controle do Flamengo. E aos 34 minutos do segundo tempo, depois, num novo ataque pela esquerda, a vantagem aumentou. Zinho entrou driblando na área e sofreu pênalti, que Zico cobrou, para fazer o segundo.

O Flamengo já havia perdido um caminhão de gols ao longo do jogo, alguns deles pelos pés do próprio Zico. Mas numa falta pela direita de ataque, na entrada da grande área e ideal para um canhoto, nosso Galinho resolveu coroar uma atuação de gala com uma verdadeira obra-prima. E aos 45 minutos do segundo tempo daquele jogaço, Zico realizou mais umade suas cobranças magistrais. Incrédulo, o goleiro Birigui ficou parado no meio do gol, em cima da linha, olhando a bola entrar, da forma mais improvável, em seu ângulo superior direito.

Ao sair do Maracanã, de mãos dadas com meu saudoso pai, pude ouvir dele: “Hoje você viu o Zico jogar, meu filho!”.

Clique nas imagens para ampliar

Video com os gols do jogo

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12 Respostas to “Homenagem”

  1. Leon Medeiros (Manaus - AM) Says:

    Rapha… tenho apenas 18 anos e não tive o prazer de ver o Zico dar show. Perdi minha mãe a 10 meses, e eu sei muito bem a dor que vc sente. Sou muito chato com a Revista Flamengo, cobro pelo twitter, comunidade ou orkut da comu… cobro muito pq sou fanático pelo Mengão assim como vcs e quero ver tuudo direitinho. (rsrsrsrsrsrs)
    Espero sempre ajudar a ‘nossa’ revista.
    SRN a vc e a todos os Rubro-Negros que fazem parte da edição!

    • Raphael Crespo Says:

      Valeu, cara. Tenho um baita orgulho de escrever pra essa revista, que é feita de rubro-negros para rubro-negros.
      E foi muito pensando em escrever sobre o Flamengo que virei jornalista. Então, além de um prazer, é uma realização profissional.
      Obrigado pelo comentário!
      E sinto muito por sua mãe, cara.
      Abs

  2. Julio Mengo Says:

    Não pude deixar de me emocionar com esse relato. Me identifiquei muito pois também fui à esse jogo com meu Pai. Nunca mais esqueci aquele gol de falta, parecia que a bola ia para fora, o goleiro hipnotizado, assistindo à cobrança magistral do Galo.

    Parabéns!!

  3. Cristiano Santos Says:

    Você teve o seu pai como elo de ligação com o Flamengo e eu tive o meu saudoso avô Dival Roque Santos! Ele vivia do esporte, e foi o diretor do programa “Stadium” e “Esporte Hoje” da TVE-RJ.

    Eu sou de 1973 e desde os 6 anos eu e mais uma caravana de amigos e familiares íamos aos domingos no Maracanã e formávamos uma fila de carros (uns 5 talvez, não lembro ao certo!!) na entrada lateral destinada à imprensa e ele dizia sempre para os seguranças: “A galera de trás estão todos comigo!!”. A atitude era mais do que errada, mas na minha doce lembrança era uma enorme diversão!

    Foram inúmeros jogos do Flamengo durante quase duas décadas em que além de “ver Zico jogar” assisti também tantos outros craques da época mais memorável do Flamengo! Sabíamos os nomes dos jogadores todos, titulares, reservas e juniores! Chegávamos cedo no “Maraca” por volta das 14h para acompanhar o campeonato das divisões de base enquanto aguardávamos o espetáculo maior às 17h.

    Eu também Zico jogar, mas também vi Zico partir para o Udinese em 83 e me senti traído quando isso aconteceu. Eu tinha 10 anos e só voltei a ver o Galinho novamente nessa mesma partida contra o Santa Cruz. A emoção de assistir o meu maior ídolo jogar só renasceu hoje com a sua volta para o Flamengo. Ano passado nós fomos campeões e confesso, não superou o que senti hoje! Dizer que o Zico voltou fez renascer em mim um sentimento nostálgico da minha infância, onde brincávamos de ser craques jogando “golzinho” na rua depois das partidas na TV.

    Só um cara tão incrível como você poderia escrever para a Revista do Flamengo! Pois só nós sabemos a alegria de ser Rubro-negros!

    Parabéns pelo texto! Emoção é pouco pra que vem pela frente com a chegada do Zico meu amigo! Abraços!
    😉

    • Raphael Crespo Says:

      Meu camarada, agora, eu fiquei com a inveja que você sente de mim quando falo dos shows que fui!
      De qualquer forma, pelo menos um pouquinho do Zico eu vi e, assim como você, fiquei muito emocionado, hoje, com a volta dele pro Mengão!
      Fantástico!!!! Um sonho de qualquer rubro-negro realizado.
      Abraços, meu amigo!

  4. Allan Says:

    Belo texto, e belas lembranças. Eu tinha 11 anos e acompanhei jogo a jogo o título de 87. Renato, Bebeto, Zinho, Jorginho, Zé Carlos, Andrade, Leonardo, Aldair, Mozer, Leandro, Edinho, Zico e tantos outros formaram o verdadeiro time campeão daquele ano. Futebol como não se viu mais no Brasil.

  5. Brenda Says:

    Oie.. adorei o post.. Nasci em 85* e meu pai vibrou mto ao ver a vitoria do Hexa.. e, ele n se cabia de orgulho, jah q sou caçula e a minha irma foi p lado da mainha, ela eh SP (aff, imagina o knto sofro) kkk.. E, me orgulho de ser Rubro negro, fico vendo os videos do youtube e me emociono mto! Mto bom!! bjus*

  6. Edu Starling Says:

    SENSACIONAL o seu relato, Rapha!

    Que bom que você tem noção do que foi esse grande artista em campo, e um dos maiores rubronegros de todos os tempos. Jogador de futebol hoje em dia não tem time, joga pro próprio bolso. Acho que o que mais chega perto de gostar da camisa é o Wagner Love, pra você ver a que ponto chegamos

    Me emocionei muito com seu texto, pois meu saudoso pai se foi há 20 anos, mas graças a ele me mantive acordado numa certa madrugada de dezembro de 1981, onde metemos 3 gols num incrédulo time inglês, que era uma grande potência européia na época

    • Raphael Crespo Says:

      Valeu, meu camarada!
      E assim como nossos pais nos mostraram o caminho da glória rubro-negra, cabe a cada torcedor do Flamengo perpetuar essa paixão entre seus filhos.
      É o que pretendo fazer com os meus que vierem.
      Que inveja de você, por ter visto a final do Mundial ao vivo, mesmo que pela TV.
      Eu, provavelmente, estava dormindo após tomar uma mamadeira quentinha…

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